Overdose de Juscelino Kubistchek

Primeiro aposento de JK em Brasília era de uma simplicidade espartana

Nos últimos dias tive, assim, uma overdose de JK. E olha que ele nem está entre meus presidentes brasileiros prediletos. Quer dizer, não estava. Agora é bem capaz de ser o mais querido, não sei. Só sei que fucei minha estante mágica outro dia e encontrei ali vários livros sobre essa personalidade marcante da nossa história. Coloque-os em minha cabeceira. Quando tiver tempo vou lê-los.

Mas o que interessa dizer é que essa febre de JK se deu por conta dos 110 anos de nascimento do grande estadista, o homem que sonhou a única utopia que foi possível de se realizar: Brasília. Assim, lá estava eu metido em vários assuntos, temas sobre o presidente pé de valsa e visionário.

Um deles foi uma visita oficial que fiz esta semana ao Catetinho, o famoso Palácio de Tábuas, uma das primeiras construções da nova capital que também se tornaria a primeira residência oficial de JK no coração do Planalto. Era uma vergonha, mas nunca tinha ido de verdade ao mítico lugar que é carregado de uma aura histórica natural, espontânea, repirasse passado ali.

Lá ficava o alojamento da elite do governo de JK, enfim, os homens de confiança do presidente, aqueles encarregados de construir uma cidade no meio do cerrado, gente como o comandante das obras, o xerife da região, Israel Pinheiro, também Bernardo Sayão, o gigante que acabaria sendo abatido por uma árvore no meio da selva candanga, e o doutor Ernesto Silva, pediatra que foi um dos mais fieis escudeiros de Juscelino.

Apesar de homens ilustres e importantes para a nação, os aposentos em que eles ficavam eram bem simples, espartanos até, conforto limitado, mas o suficiente para uma estada de fim de semana ou se viver modestamente.

Para ter uma ideia da simplicidade do lugar, na cabeceira de JK, encontrava-se apenas o velho chapéu suado de guerra, um rádio de pilha da época, livros – Eurípides e José Lins do Rego – e um abajur rosa-choque, da cor de seu pijama. Sim, porque JK usava um pijama rosa-choque e digo que era preciso ser muito homem para vestir um pijama rosa-choque naqueles distantes anos 50.

Num armário escanteado, próximo à porta, a pequena e prática mala de viagem, além de uma moringa feita de barro que, segundo informações do cicerone dessa viagem histórica que fiz ao catetinho, era para não ter que descer até a cozinha para pegar água porque o lugar tinha onça. Juscelino chegou dizer que dormia com o barulho dos animais vindo da mata que ficava ao lado do Palácio de Tábuas.

Ah, sim, e por falar em cozinha, que espetáculo a cozinha do Catetinho, um brinco, com fogão à lenha, panelas e panelões, uma série de untesílios para preparar a deliciosa comida mineiro que o presidente de Diamantina tanto amava.

A segunda parte da overdose de JK que tive foi ocasionada com outra visita, agora no Memorial JK, um lugar que já conhecia, mas não de todo. Assim, nessa segunda viagem mergulhei mais fundo nas entranhas do espaço e descobri, por exemplo, a fantástica biblioteca pessoal de Juscelino, desmontada no Rio de Janeiro e remontada no museu dirigido pela neta, Anna Cristina.

Aliás, que gatinha essa Anna Cristina, neta de JK. Apesar da responsabilidade do sobrenome e de seu compromisso com a memória de um dos homens mais importante da história do Brasil, ela se mostra simples, educada e graciosa. Só para mostrar que nem toda Ana tem vocação para o sadismo, soberba e desprezo. Será que é por causa dos dois “Ns”?.

Enfim, voltando à biblioteca pessoal de JK, queria morar lá, só para ler sua coleção completa de Eça de Queirós, de Shakespeare – em inglês -, e de outros autores que ali moram. Bom, quando eu morrer não quero ir para o céu nem para o inferno, mas para um sebo. Ficaria satisfeito, feliz da vida se ficasse na biblioteca pessoal de JK.

* Este texto foi escrito ao som de: Meus caros amigos (Chico Buarque – 1976)

Catetinho – O palácio de tábuas

A 1ª residência oficial de JK em Brasília era um colosso de madeira

Reza a lenda que os rascunhos da primeira morada de Juscelino Kubitschek, o Catetinho, foram rabiscados por Oscar Niemeyer, num guardanapo do extinto Juca’s Bar, numa noite de 1956, no Rio de janeiro. Ali mesmo, sensibilizados com a distância que separava JK de seu sonho, quase utopia, uma “vaquinha” foi realizada entre os amigos do presidente e, do montante, deu-se início à construção, imortalizada entre suas matas, regatos e fontes de água cristalina de: o Palácio de Tábuas. O resto é história.

Bom, há quem conteste o episódio acima, inclusive com documentos, mas, entre a história oficial e a folclórica, fico com a segunda até pelo caráter, lírico, caricato e, porque não dizer, boêmio. Afinal, eram tempos de bossa nova, alegria e progresso.

O gozado é que estou escrevendo sobre o Catetinho e, no que eu me lembro, acho que nunca fui ao local. Quer dizer, não me lembro de ter feito uma visita assim, real, verdadeira, ou seja, não me embrenhei de corpo e alma pelo passado da cidade que escolhi para viver. A gente tem dessas coisas, ou seja, de querer conhecer o mundo para depois conhecer nossa aldeia, nossas raízes, nossas origens.

De modo que vou tomar vergonha na cara e, na próxima semana mesmo, farei uma expedição ao Palácio de tábuas. Mas enquanto isso não acontece, vão aqui quatro ou cinco informações sobre o lugar que foi o primeiro cantinho de JK, no cerrado central. E o lugar tem história.

O nome, uma brincadeira do músico Dilermando Reis, amigo pessoal de JK – que foi o primeiro artista de prestígio nacional a tocar na solidão do cerrado -, fazia referência a até então sede do governo federal, localizado no Rio de Janeiro, o Palácio do Catete, onde anos antes, Getúlio Vargas cometeria suicídio.

O prédio de madeira, erguido sobre pilotis, foi construído em 10 dias, a partir do esforço de 20 operários que, trabalharam duro, numa jornada diária de 18h para erguer a primeira residência oficial de Juscelino Kubitschek. Para o próprio presidente mineiro o lugar era um símbolo.

“Foi ele (o Catetinho) a flama inspiradora que me ajudou a levar à frente, arrastando o pessimismo, a descrença e a oposição de milhões de pessoas, a ideia de transferência do governo”, registraria o presidente no seu livro, Porque construí Brasília.

Inaugurado em 10 de novembro de 1956, o Catetinho era também porto seguro de muitos homens de confiança de JK, como o engenheiro Juca Chaves e o arquiteto Oscar Niemeyer, além do xerife do cerrado, enfim, o chefe de obras da construção de Brasília, Israel Pinheiro, que tinha um quarto exclusivo, cativo, no palácio.

E, foi no Catetinho que a dupla sensação da música brasileira no momento, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, se hospedariam em 1958 para escreverem a mítica Sinfonia da Alvorada, buscando inspiração na paisagem deslumbrante formada pelas matas de galeria, o som das águas da fonte, festas dos pássaros e bichos do lugar. Tom Jobim, amante dos bichos e da natureza descreveu assim, certa vez, um passeio que fez pela selva do Catetinho. “De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos”.

Construção concebida a partir dos princípios modernistas, em 1959, a pedido do próprio JK, o Catetinho foi tombando como, Patrimônio Histórico e Cultural de Brasília pelo IPHAN.

Homenagem mais do que justa.

* Este texto foi escrito ao som de: Sinfonia da Alvorada (Tom Jobim e Vinícius Moraes – 1960)