Um certo capitão Rodrigo

Tarcísio Meira na encarnação mítica do personagem de Érico Veríssimo...

Tarcísio Meira na encarnação mítica do personagem de Érico Veríssimo para a televisão brasileira

Com certeza Rodrigo Cambará, um dos personagens mais marcantes da saga, O tempo e o vento, de Érico Veríssimo, está entre minhas personas preferidas da tríade, cinema, literatura e música. Diria que ele ficaria assim, pau a pau, na minha admiração ficcional, com o angustiante e romântico poeta Paulo Martins – o mártir maldito de Terra em transe, de Glauber Rocha -, assim como o sincero e tresloucado Brás Cuba, de Machado de Assis. Ah, sim, também tem o estoico e durão Rick de Casablanca, o sujeito que, tal qual como eu, nunca fica com a mocinha no final da história.

Bem, galante, falastrão, performático, mulherengo, seresteiro, valente e corajoso, esse certo Capitão Rodrigo também é um dos personagens masculinos mais fascinantes que conheci na literatura. Sua chegada à vida da vila de Santa Fé é marcada de mistério e estranheza, quase que como num sopro de vento. Montado em seu alazão garbo e altivo, violão jogado nas costas, chapéu de barbicacho, uniforme impecável, lenço rubro no pescoço e olhos penetrantes de gavião, logo foi conquistando a antipatia e simpatia de todos daquelas redondezas do Rio Pardo.

Mas o único coração que capotou por sua figura imponente foi o da bela e arisca, Bibiana – neta da positiva, Ana Terra -, menina linda com seu lindo sorriso mágico e duas pintas hipnotizantes no canto da boca.  “Foi então que uma figura lhe chamou subitamente a atenção. (…) Estava parado a contemplá-la. (…). Seu corpo foi tomado de uma sensação estranha, uma espécie de medo que ele lhe viesse falar. Era também como uma cócega, como se aquelas formigas todas lhe estivessem passeando pelo corpo”, observa o autor, com olhar lascivo, quando os dois personagens românticos se encontram no cemitério da cidade.

Capitão Rodrigo 2Horas antes, ao adentrar pela cidade, Rodrigo Cambará, com seu porte de soldado soberbo, passado repleto de glórias para contar, se aportou na venda de Nicolau, o único estabelecimento do gênero no lugar.

- Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho! – foi logo se apresentando.

Bom, no meu inconsciente de menino, a figura altiva de Rodrigo Cambará está muito vinculada ao charmoso ator Tarsísio Meira, quem interpretou o personagem na inesquecível minissérie da Globo, O tempo e o vento. A imagem dele caracterizado de soldado com a emblemática bombacha e sotaque gaúcho faz parte dos meus tempos de calça curta e inocência.

Reinventado de forma expressiva por Thiago Lacerda na adaptação da história para o cinema por Jayme Monjardim, Rodrigo Cambará, na minha visão simplória, é a quintessência do homem viril e másculo. “(…) Só sei que lá pelo anoitecer acordei completamente nu numa cama não sei de quem, num quarto não sei onde e ao lado duma mulher não sei de quem nem de onde”, gaba-se ele em dado momento da narrativa do tomo O continente Volume 1.

Se eu pudesse ser como esse certo capitão Rodrigo, ia descartar o lado guerreiro, amante das batalhas e das lutas dele e me concentraria no lado galanteador. Quem sabe eu conquistaria minha “eterna” Bibiana.

Como diz o personagem Pe. Lara, grande amigo do Capitão Rodrigo, se referindo a ele:

- O senhor é um sujeito das Arábias!

* Este texto foi escrito ao som de: A gift from a flower to a garden (Donovan – 1967)

Donovan

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