Os fantasmas e demônios de Sukorov

Arca Russa: Quatro séculos de história num único plano-sequência

Arca Russa: Quatro séculos de história num único plano-sequência

O cinema russo já nos deu as invenções cinematográficas de Serguei Eisenstein (1898 – 1948) e o lirismo angustiante de Andrei Tarkovsky (1932 – 1986). O primeiro, ídolo do baiano Glauber Rocha (1939 – 1981), é quase o pai da montagem moderna no cinema, vide sua obra-prima, O encouraçado Potemkin (1925). O segundo, marcado por uma densidade da alma incômoda, fascina cineastas contemporâneos, entre eles o infernal dinamarquês Lars von Trier.

Talvez atualmente o mais expressivo nome das telonas da antiga União Soviética, Alexander Sukorov ganha mostra retrospectiva imperdível que acontece até o fim do mês no CCBB de Brasília. São trinta títulos de uma filmografia marcada pela narrativa experimental e estudo cinético de personagens míticos e polêmicos tanto ficcionais, quantos reais.

Admito que conheço bem mais o trabalho do cineasta das leituras de resenhas sobre os seus filmes do que de vê-los na tela. Daí o fato dessa mostra na cidade ser imperdível. Contudo, dos poucos registros que vi, fiquei impressionado com a originalidade e estilo com que Sukorov desenvolve seus projetos, fazendo dele um dos raros estetas da imagem do cinema contemporâneo.

Se eu fosse você não deixaria de ver, logo de cara, a versão desfigurada do diretor para o clássico da literatura alemã, Cartaz SukorovFausto, ponto alto da carreira do escritor Goethe (1749 – 1832). Nessa que é a última parte da tetralogia de Sukorov sobre o poder, o filme conduz o espectador por uma encruzilhada de culpa e ganância do personagem-título que vendeu a alma ao demônio em troca de conhecimento. Impressiona o tratamento pictórico dado pelo cineasta à fotografia, com pigmentos e texturas visuais que nos faz parecer estar diante de uma tela.

E se é para ver Fausto, que você não perca então os outros filmes que fazem parte dessa tetralogia que são Moloch (1999), Taurus (2000), O sol (2004), respectivamente um olhar curioso e cheio de interrogações sobre os líderes Adolf Hitler, Lênin e Hirohito.

Mas descobri a existência de Sukorov ao assistir ao impressionante Arca russa, bem ali no saudoso e extinto cinema da Academia de Tênis. Com seus 96 minutos de plano-sequência ininterruptos, o narrador fantasma da trama, um misterioso diploma do século 19, nos conduz por uma visita surrealista pelos enormes salões e corredores do Museu Hermitage, em São Petersburgo. São quatro séculos de história da Rússia contada por meio de deslumbrantes telas e objetos do passado, dentro de retórica marcada pela ironia e amargura.

Pode até parecer cansativo assistir a um filme de 1h30 sem cortes, mas não deixa de ser um desafio saboroso, tendo em vista o deleite de apreciar o talento de um dos cineastas mais autênticos da atualidade. Só para quem gosta de cinema mesmo.

* Este texto foi escrito ao som de: Copacabana mon amour (Gilberto Gil – 1970)

Copacabana mon amour

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