Mea culpa – Quem foi Doca Street

o autor do livro nos anos 70, no banco dos réus...

Street no  banco dos réus na década de 70, crime chocou o país

Em dezembro de 1976 eu tinha três meses de idade quando um crime bárbaro chocou a alta sociedade carioca, com o assassinato de Ângela Diniz, a “pantera de Minas”, pelo empresário e corretor de ações, Raul Fernando do Amaral Street, o Doca Street. Os dois eram namorados e amantes ou amantes e namorados, quando uma crise de ciúme motivou toda a confusão que arruinou com a vida de ambos e de muita gente envolvida direta e indiretamente com ambos.

Trinta anos depois, em 2006, o homem que dividiu vários segmentos da sociedade rompeu o silêncio para contar sua vida de excessos, erros e pecado com o lançamento do livro, Mea culpa. Lançado pela editora Planeta, há oito anos que o título adormecia em minha estante mágica. Mas agora resolvi tirar o livro de sua quietude de poeira motivado pela trajetória do criminalista Evandro Lins e Silva. Bom, para quem não sabe, Evandro Lins e Silva foi um dos mais respeitados juristas brasileiros, quem representou Doca Street no julgamento, argumentando a defesa da honra.

Assim, ao me deparar com o pesado exemplar de capa obscura que traz uma imagem quase imperceptível de Doca Street, me lembrei de várias coisas. Uma delas foi do bandido romântico Lúcio Flávio – figura emblemática da época -, um dos ídolos de meu pai (já naquele tempo o coroa era lunático). A outra, do comentário interessante da minha amiga Paola – que hoje não lembro -, sobre o caso Doca Street. Mas também de episódios similares como o assassinato da atriz Daniella Perez e o crime envolvendo o goleiro Bruno.

Doca Street 2Enfim, personagens corriqueiros das colunas sociais dos jornais dos anos 70, Doca Street e Ângela Diniz eram a personificação do jet set carioca. Ou seja, bonitos, elegantes, ricos, viciados em drogas e bebidas, jovens com a vida toda pela frente. Ela casada com o então badalado colunista e jornalista Ibrahim Sued. Ele, homem de negócio bem sucedido, pai de dois filhos e casado com empresária de tradicional família paulista.

No livro, Doca Street conta que procurou Fernando Morais para escrever sua história. Ocupado com outros projetos, o autor de sucessos como Chatô – O rei do Brasil e A ilha, o convenceu de que ele mesmo, Doca Street, seria o melhor autor de sua trajetória. “Por que Mea culpa? Porque se trata de uma sequência de acontecimentos que, além de mim, envolveram outras pessoas”, comenta Doca no prefácio da obra. “Não é apenas culpa de um crime, é culpa de um todo e de suas consequências”, reflete.

Norteado por narrativa gostosa e hipnotizante, Mea culpa tem um quê de Rubem Fonseca, mesmo que lá longe,  mas tem. Dividido em duas narrativas – uma as lembranças de Doca com Ângela, outra do período em que ficou preso -, o livro é cheio de revelações e surpresas. Sincero e autocrítico, Doca Street conta em detalhes a vida de playboy que levava com festas e encontros regados a hectolitros de uísque, carreiras intermináveis de cocaína e noites adentro de sexo. Também tem relatos contundentes da dura rotina de presidiário, a angústia e culpa de ter cometido o crime, assim como o remorso de ter traído a mulher e os filhos.

“Paixão é como cachaça, sem o A.A.”, desabafa em dado momento do livro. “Como deveria estar a cabeça de um adolescente cujo pai havia sido preso por descarregar a arma na amante?”, se penitencia.

Claro, Mea culpa é a versão do autor-personagem para os fatos bizarros em que ele envolveu e não estou comprando a versão do livro, já que nada na vida justifica ato tão selvagem, mas não deixa de ser comovente ler sobre o desespero de um homem diante do arrependimento. Viver sob o signo da culpa é um dos piores pesadelos. Sei muito bem o que é isso.

* Este texto foi escrito ao som de: Gasoline Alley (Rod Stewart – 1970)

Gasoline Alley

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4 comentários sobre “Mea culpa – Quem foi Doca Street

  1. na decada de 80 meu apelido foi doca street;porque ue me chamava doca.as pesoas tiravam sarros de mim.eu n gostava

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