A maldição da mulher de preto

O estigma do bruxinho do bem Harry Potter morre aqui

Estou tentando me lembrar da última vez que fiquei com medo de ver um filme no cinema. Só lembro que minha infância foi marcada pelo pavor quase bíblico do thriller, O exorcista, clássico do terror de 1973 dirigido por William Friedkin. Anos depois vi o DVD, em casa, sozinho e morri de ri. Mas a obra tem lá o seu charme e seria um dos pioneiros do terror de suspense, misturado com macabra tensão psicológica.

Mais tarde, a febre dos filmes de terror japoneses invadiu o mercado mundial e acho que foi numa dessas sessões que fiquei, sim, um pouco com os cabelos arrepiados, depois de ver aquela criatura bizarra e cabeluda de O grito. Pois bem, outro dia senti um daqueles calafrios na nuca ao ver o drama A mulher de preto, protagonizado por Daniel Radcliffe.

Eterno Harry Potter, o ator britânico de 22 anos está irreconhecível sem os famosos óculos do bruxinho mais famoso e querido do planeta, mas sua atuação neste trabalho de peso, dirigido pelo desconhecido, James Watkins, impressiona. Se existia algum estigma por causa do personagem criado pela britânica, J. K. Rowling, ele morre aqui.

Na macabra trama que vem fazendo o maior sucesso nos cinemas, sobretudo ao boca a boca nas redes sociais, ele é Arthur Kipps, jovem advogado que ainda não superou a morte de parto da mulher. Carrega consigo o peso da dor e uma tristeza aguda que não consegue esconder do filho, agora um jovem rapaz de cinco anos. “Por que pareço tão triste?”, pergunta ele intrigado ao ver ao desenho que o pequeno lhe dera de presente.

Mas a vida continua e se ele não se empenhar no emprego, o patrão vai lhe chuta o traseiro. Então deixa o filhote com a babá e parte em viagem de trabalho para o interior de uma Inglaterra vitoriana cinza e fria que parece ter saída de um daqueles páginas do romance da inglesa, Emily Brontë. Vai cuidar dos tramites legais dos Drablow, proprietários de uma mansão localizada nos arredores de uma vila que parece viver na Idade Média.

Os moradores da região acreditam que o lugar é mal assobrado, por isso, olha torto para o recém-chegado advogado que só quer fazer o seu trabalho e reencontrar o filho. “É como persegui sombras”, avisa um dos poucos amigos do lugar, tentando demovê-lo da ideia de investigar as misteriosas mortes do lugar.

Um dia, remexendo as papeladas dos clientes mortos, ele recebe a bizarra e estranha visita do fantasma de uma mulher de preto que, se você olhar bem, lembra aquela bruxa da capa do primeiro disco do Black Sabbath. Ela está em busca de algo que perdeu há muito tempo, o filho morto afogado no pântano próximo a casa, na ocasião, sob a guarda dos donos da casa, seus parentes. Portanto, atazana a vida de todos que atravessam seu caminho com aparições perturbadoras em formas de silhuetas, sombras e reflexos no espelho.

Baseado no livro homônimo da escritora, Susan Hill, publicado em 1983, A mulher de preto é, até hoje, um dos grandes sucessos do teatro britânico, há mais de vinte anos sendo encenada nos palcos. Flertando com premissas da doutrina de Allan Kardec e o que há de mais tenebrosos das forças ocultas, o filme, que conta com deslumbrante direção de arte e fotografia, intencionalmente, plúmbea, fala também de como a fé e a dor da perda podem ser manipulados de forma oportunistas por charlatões mal intencionados e de maneira irracional por aqueles que têm medo do desconhecido, daquilo que não conhecemos.

Se A mulher de preto é um thriller de terror? Não sei, talvez sim, mas longe das produções embusteiras que só são boas de dar sustos e nada mais. Com certeza, bem mais próxima de obras instigantes e sofisticadas como o assombroso, Os outros, do espanhol, Alejandro Amenábar.

O medo às vezes pode ser inteligente.

* Este texto foi escrito ao som de: Black Sabbath (1970)

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