Contos eróticos (5) A freira pecadora

“Tinha ojeriza a padre, freira…”.

Rodrigo tinha um ódio mortal de Igreja. A birra era tanta, que não passava nem em frente de uma dessas instituições sagradas, seja ela de qual crença fosse. E, caso isso acontecesse, por descuido ou imposição,não perdia a oportunidade:

- Bando de trouxas!!!

A implicância vinha dos tempos de criança, quando era obrigado a fazer os caprichos da mãe carola seguindo todos os rituais da religião católica. Mas nem sempre fora assim. Empolgado com as aulas de catequese e os ensinamentos da Bíblia, não demorou muito para se voluntariar-se a ser coroinha. Achava que a experiência seria boa. Mas a opinião mudara na etapa seguinte quando, ao fazer a Crisma, passou a ser perseguido por uma freira que era um verdadeiro inferno. A perseguição era tamanha que até pensou que estivesse seguindo a religião errada, se sentia um  judeu. E a freira chata, um panzer nazista.

Baixinha, gorda, meio estrábica, usando óculos de fundo de garrafa, Irmã Sofia tinha o dom da antipatia. Implicante e ao mesmo tempo autoritária, era o terror da turma e há quem diga que de alguns padres também. Frei Juvenal, fazia de tudo para não chegar perto, preferia segurar na mão de Satanás do que passar cinco minutos com ela tagarelando reclamações ao seu ouvido.

Um dia, quando ensaiava os meninos para uma apresentação que aconteceria na missa de Sábado, eis que ela deu para pegar no pé de Rodrigo que, nervoso e um tímido inveterado, não conseguia encontrar o tom certo da sua parte no jogral:

- Assim não Rodriguinho, assim, não. É assim: “Hortêeeeencia flor mimooooosa, quereeeemos lhe ofertar”, ensinava ela, com uma irritante voz.

Resultado, sua performance na missa daquela noite fora um fiasco. Chateado e mordido de ódio, nem chegou a concluir a Crisma. Radical, prometeu nunca mais colocar os pés numa igreja. Passou a ter aversão não só de freiras, mas de padres também. E toda vez que esbarrava com uma dessas criaturas vestidas de preto e branco, qual um pinguim sacro, soltava a frase quase banal:

- Bando de trouxas!

Branca como a neve, doce como um anjo

O único contratempo do desligamento total de Rodrigo com a Igreja era Drikinha. Amiga dos tempos de escola, a pequena Adriana, como se chamava, de fato, a sua Drikinha, era dona de um dos sorrisos mais encantadores da face da Terra. Branca como a neve, doce como um anjo, a criatura encantou Rodrigo de forma comovente. De namorico aqui e acolá, juraram-se amor eterno.

Mas agora, afastado dos desígnios do Senhor, ela que tinha uma fé de Moisés de Cecil B. De Mille, ficou decepcionada com a atitude infantil e insana do seu grande amor. A ponto de nem mais quer vê-lo e, tomada por uma tristeza arrebatadora, jurou diante do altar:

- Se não posso ser dele, não serei de mais ninguém! exagera.

Assim, a partir daquele dia em diante, para o bem ou para o mal, Drikinha se entregou de corpo e alma a Deus. Mas alma do que corpo, enterrando para sempre a imagem de Rodrigo no limbo do esquecimento. Se possível, correria dele como o diabo da cruz.

Sem saber da decisão de amada, mas ciente da confusão que impetrara na cabeça da pequena, resolveu dar tempo ao tempo, decidindo procurá-la só depois que as chagas desse imbróglio insólito se cicatrizassem. De modo que se passaram um ano, dois e, lá pelo terceiro, numa animada roda de amigos, soube da notícia com pesar. Desconsolado, nem terminou de ouvir o resto da conversa, sentou no meu fio e, entre soluços, chorou lágrimas de esguicho.

Um poodle na faixa de pedestre

Não que Rodrigo tivesse vocação para ser santo, mas a verdade é que depois que Adriana o trocou, categoricamente, por uma intervenção divina, descambou a beber. Bebia de cair no chão, de beijar parede. Um dia, no Gilberto Salomão, ao avistar Felipe de abada e tatuagem na testa, começou a gritar, bêbado:

- “Filipinho”, sou ou não sou uma besta, diga, uma besta, pode falar!

Como se não quisesse chamar mais atenção com toda aquela vestimenta branca e tatuagem pelo corpo, Felipe, que ainda exibia um protuberante piercing numa das orelhas, dá a bronca:

- Diguinho, olha o vexame, cara! Porra, peloamordedeus!

E nessa toada cambaleante ia Rodrigo tocando a vida até o dia em que, alcoolizado ao volante, atropela um poodle na faixa de pedestre, no Lago Sul. Resultado: perde a carteira de motorista, o carro, (apreendido) e, para não ser preso, é gentilmente convidado a prestar serviços comunitários. Um mês na Santa Casa de Misericórdia, duas horas por dia à disposição das freiras que tomavam contam do local. Sorte dele não ter ali nenhuma Irmã Sofia. E, também por sorte ou azar, foi ali que reencontraria o grande amor de sua vida, Adriana, ou melhor, Drikinha, deliciosamente vestida com um daqueles desconfortáveis hábitos.

O pecado nosso de cada dia

O reencontro entre Rodrigo e Adriana foi marcado por um misto de alegria e surpresa. Muito se foi conversado, rancores e mal-entendidos dissipados, afetos restabelecidos e, na despedida daquele dia, uma troca de olhares furtivos. Rodrigo partiu com o coração quente de desejo pela antiga paixão. Já Adriana, com sentimentos confuso, meio embaralhados. Andando de cabeça baixa e com as mãos no crucifixo que levava no peito, ia dizendo, de si para si:

- Senhor não me deixas cair em tentação, não me deixas cair em tentação!”

No dia seguinte, Rodrigo não encontrara a antiga amiga na Santa Casa de Misericórdia, que ficava entre a escola onde ambos estudaram e o convento das irmãs. Passagens de labirintos, formadas entre um enorme jardim, conduziam os visitantes, pacientes e quem ali morasse, no caso as próprias freiras, de um lugar a outro. Só as irmãs conheciam, como a palma de suas mãos, cada recanto do lugar.

No dia seguinte, finalmente Rodrigo pode rever novamente Drikinha, quer dizer, agora Irmã Adriana. Mas dessa vez algo estranho pairava no ar. Tensa, Adriana não escondia o desconforto e o sentimento de culpa de estar ali, ao lado da única pessoa que amou em toda a sua vida. Esboçaram frases soltas, desconexas, um diálogo insosso que terminou num ardente beijo bem no meio daquele jardim do Éden.

Por obra das circunstâncias ou milagre, num piscar de olhos os dois estavam no franciscano quarto de Adriana, mobiliado apenas com um criado e sua cadeira, uma cama e a cruz na parede acima da cabeceira. Tremendo, não se sabe de medo ou desejo, Adriana tirou o hábito por cima dos ombros e cabeça. Olhando nos olhos de Rodrigo, beijou calidamente sua boca. Antes de se virar para ele, sussurra em seus ouvidos:

- Peca comigo, peca?!

De lado, na cama, com a penugem do sexo negro contrastando com sua pele alva, de Branca de Neve, gemia de desejo, entre as quatro paredes daquele santo lugar. Se o inferno era aquilo, iam queimar para sempre nas profundezas de um mundo de danação.

* Esse texto foi escrito ao som de: Appetite for destruction e Guns n’ Roses lies (Guns N’ Roses 1987, 1986/1988)

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25 comentários sobre “Contos eróticos (5) A freira pecadora

  1. Gostei muito do texto, leve ,suave quase pueril. Parabéns, encontrei por acaso a tua page. Continue escrevendo, o exercício aperfeiçoa o mestre.

  2. Muito bom este seu conto mas, não minha humilde opinião, faltou um pouco mais de “pimenta”. Afinal, é ou não é um conto erótico?
    De qualquer forma parabens por sua criação.

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